O trauma ácido e corrosivo da auto-imagem
- Simon Jaques & Blue

- 3 de nov. de 2018
- 7 min de leitura
Atualizado: há 6 horas

Minha lembrança de hoje vem da construção do ser, do eu. E para isto lá vem textão, afinal não sou tão trivial assim....rsrsrs. Mas sou simples e feliz. Eu me construí, reconstruí, destruí e me refiz...ciclo eterno de vida pulsando.
Hoje fui apresentando à música FLUTUA de Johnny Hooker e logo foi buscar o clip (adoro clip de músicas, pois explicam a visão do autor e interprete). Me deparei com a brutalidade gerada pelo preconceito, que eu também tenho. E fazendo um paralelo com tudo que passei em minha vida, até hoje, por causa da minha etnia, cheguei a algumas indagações: Qual a diferença entre homofobia e racismo? Quem sofre mais sem voz as mulheres ou uma raça inteira que carregam suas correntes sociais até hoje? Quem somos para dizer como o outro deve amar? Quem somos para dizer para o outro por onde deve entrar ou sair? Quem somos para definir quem tem o direito de ser bem-sucedido ou não? Pela minha vivência, não conheço a diferença entre a luta dos homoafetivos, dos pretos, dos pobres, das mulheres, dos nordestinos, dos gordos, de todos que estão fora deste padrão hollywoodiano.
Esta semana, eu fiz um curso no BusinessLab de gastronomia, este era o tema principal. Porém, quando iniciamos as atividades já no primeiro dia, tomei uma porrada de consciência da minha existência que até hoje estava pautada em um sufocamento do meu real ser, enquanto desejo e autoimagem.
Eu nasci em um ambiente negro, mas que nunca fomos realmente negros. Meu avô paterno tinha olhos verdes e minha avó (desde que me conheço por gente) tinha o cabelo alisado e eles não tinham a pele muito escura. Meu pai sempre foi um homem quase não negro de princípios e navegava bem no oceano dos brancos. Casou-se com minha mãe que é branca e foi o lado da família da minha mãe que eu mais me identificava, mesmo sendo achincalhado com piadas e comentários de minha avó materna e meus tios. Sempre diziam, que eles tinham cabelos do saco, melhores que o meu. Que eu iria quebrar o pente ao pentear meus cabelos. Que eu era um nego feio, mas que toda panela tem sua tampa. Que preto quando não caga na entrada, com certeza vai cagar na saída e assim vai.
Com o tempo eu fui me acostumando com a inferioridade do meu ser e tentando ser cada vez mais parecido com minha família materna, ou seja, branco. Meus cabelos sempre foram curtinhos, não gostava de sol e evitava contato com meus parentes paternos. E o pior de tudo, passei a ser usuário deste conceito distorcido sobre negro.
Quando fui para a o segundo grau, o choque foi ainda maior. Pois, além de todos serem brancos em minha escola, eles tinham um nível social-econômico bem superior ao meu. Então tive que aprender sobre este mundo para que pudesse pelo menos conversar com eles. Foi me tornando alguém “embranquiçado” e forjando um nível social imaginário e buscando um futuro que nem tinha ideia do que era, mas eu precisava, queria, desejava.
Na faculdade, a situação foi ainda pior. Pois meus amigos mais simples eram muito mais ricos e brancos do que eu. Então usei minha ferramenta mais preciosa, o bom humor e simpatia para me destacar e me tornar o pobre e negro que conquistou as américas, como eu costumava dizer: “Preto e pobre tem que ser pelo menos simpático”. Eu me autointitulava negro, não por acreditar nisto, mas porque já sabia que ninguém me reconheceriam como tal e assim, pude disfarçar mais uma vez a minha autoimagem distorcida. E esta visão errada de mim mesmo, me levou à caminhos dolorosos que sempre me cobraram um preço emocional muito grande. Não que me arrependo deste caminho trilhado, mas me lamento pela falta de consciência de mim mesmo.
Hoje estou trilhando um novo caminho, mudando tudo que estava no módulo automático e passando para a ressignificação do meu propósito de vida, com plena e total consciência do meu eu, ou quase. Eu posso sim ter um cabelo crespo, posso ser negro, gordo, pardo, beiçudo, o que seja, eu posso ser e ainda serei eu.
No BusinessLab, eu me encontrei com vários “eus” no grupo, me reconheci e me achei, tive a capacidade de me ver como lindo, como belo, existi simples e tão eu. Finalmente, eu entendi o que minha vó falava. Quando dizia que eu acharia minha tampa, não porque eu sou feio, mas porque eu achei a minha prateleira com as panelas da mesma marca e tipo. E lá tem várias tampas que me complementam. Eu só estava na sessão errada da vida.
Quando um integrante da tribo africana Zulu encontra alguém, costuma dizer:
– Sawu bona (Olá! Eu te vejo!)
A resposta:
– Sikona (Eu estou aqui!)
A explicação se dá ao fato de que se você VÊ o outro – significa que ele é importante para você, e exalta a existência dele, pois as pessoas que existem para você é porque são importantes na sua vida.
Se ela responde “estou aqui”, significa que a presença dela fortalece a colaboração, pois ela está para o seu encontro, o elo mais importante…., pois não existimos para vivermos sozinhos.
Agora o cumprimento da tribo me fez todo sentido. Pois ninguém me via, uma vez que enxergavam minha cópia trabalhada na aceitação e eu nunca quis me encarar de frente, sempre fugindo do espelho ou qualquer coisa que me refletisse. Continuo tendo dificuldade com minha imagem, mas esta dificuldade está se tornando consciente, presente e viva.
Nesta imersão no BusinessLab, eu tive o grande orgulho de participar de um grupo homogêneo tanto em raça como em história. Não preciso esconder minha pobreza infantil. Não preciso reforçar minha “pertenciabilidade” com este grupo, foi acolhido e naturalmente absorvido sem explicações, justificativas e redefinições. Neste meio social, eu estava inserido. Neste grupo, eu pude falar e me apropriar de minha vida, minha raça, minhas crenças, meu eu.
Eu era sempre aquele personagem subjacente que nunca podia brilhar, ser o astro, o principal, profissionalmente falando. Pois, eu era o indispensável para alegrar a plateia, o público, mas nunca o profissional eleito. Eu nunca entendia o “Por quê”, pois eu tenho talento, eu sou competente, sou comunicativo, sou extremamente sociável. Por que não eu? O único eco que eu ouvia era: Porque não chegou a sua vez. Porque Deus não quis. Mas neste grupo do BusinessLab, pude perceber que minha culpa não era 100%, mas que eles nunca me dariam o direito de ascender, nunca naquele grupo ao qual eu “pertencia” e lutei minha vida inteira para pertencer. Eles nunca deixaram, eles nunca deixam, eles nunca deixariam, Não sem resistência, Não sem me impor!!
Cozinhar com este grupo de negros buscando os mesmos objetivos que o meu, de forma tão harmoniosa, fluídica, me deu um outro sentido para a gastronomia, uma visão além das panelas e temperos. Temos uma missão gigantesca e este ofício pode ser utilizado como ferramenta nesta causa. Pois só queremos sermos nós mesmos sem que ninguém nos julgue e sentencie ao segundo plano da sociedade. Podemos ter sucesso, podemos ganhar dinheiro, podemos ser ricos, podemos frequentar excelentes restaurantes. Podemos, podemos, podemos e podemos, sem que ninguém defina onde devemos ficar, até quanto podemos ganhar, se podemos ou não entrar pela porta da frente. Não queremos mais rótulos. Queremos apenas sermos nós!!
Hoje, li uma frase do Martin Luther King Jr: “Quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele” e vi um vídeo do Selos Homens de Cor: Negror - uma peça panfleto que reforçou o tapa na minha cara. Acorda Gerson..... O que eu tenho haver com isto? Se estão matando mais jovens negro que na guerra da faixa de gaza? Que o negro não tem as mesmas oportunidades no mundo dos negócios e empregos? Que a discrepância salarial entre negros e brancos poderá ser equalizada por volta de 2089? Me explica o que eu tenho haver com isto??
O que eu tenho haver com isto? Agora eu sei a resposta, eu sou uma destas estatísticas, haviam me tirado até a consciência das minhas faltas, falta de oportunidade leal, falta de chance de ser um excelente cozinheiro, falta de visão que eu deveria estar do lado de lá deste muro. Eu não sou branco, nunca fui, eles nunca me aceitaram como tal, mas fechei meus olhos para não sangrar como meu povo que sangra até hoje. Só que eu sangrei por anos e achava normal esta hemorragia, eles me disseram que era assim mesmo. E eu acreditei nisto por todo este tempo.
O BusinessLab veio para me derrubar no chão e me mostrar que isto não é normal, não é certo. Eu posso sim e não sou igual a eles. Ser negro, afrodescendente, moreno, pardo, não dá o direto ao outro de não me valorizar e me subjugar em tudo que eu faça. Eu posso, Eu quero, Eu serei. Três frases tão curtas, mas de uma amplitude gigantesca. Eu posso, Eu quero, Eu serei. ... Meu rio não chegava até o mar. Agora, ele é o mar!!!
O cumprimento da tribo africana Zulu faz o total sentido nesta minha nova era, cabelo Afro, pele bronzeada, beiço deliciosamente grande, como todas as minhas características físicas, emocionais e sociais da minha raça e vou falar bem alto e bom tom para mim mesmo sempre:
– Sawu bona (Olá! Eu te vejo!)
A resposta:
– Sikona (Eu estou aqui!)
E hoje, eu me vejo, me enxergo, me aceito, me quero e com isto eu posso, eu quero, eu serei o que eu quiser, empresário de sucesso, cozinheiro famoso, negão nas mídias...Se eu quiser. E ninguém, mas ninguém mesmo, vai me tirar esta chance de ser o que eu quero ser, eu não darei este direito nem a mim memo. Pois hoje – Sikona (Eu estou aqui!). Eu estou aqui!! Eu estou!! Dance comigo, a nossa canção! E flutua, flutua, flutua...flutua. Ninguém vai poder, querer nos dizer como “nos” amar......
“O que vão dizer de nós?
Seus pais, Deus e coisas tais
......
Baby, eu já cansei de me esconder
.....
Eles não vão vencer
Baby, nada há de ser, em vão
Antes dessa noite acabar
Dance comigo, a nossa canção!
E flutua, flutua
Ninguém vai poder, querer nos dizer como amar
E flutua, flutua”
Com Re-amor, Simon!!





Comentários