O que fazer com essa nova vida?
- Simon Jaques & Blue

- há 3 dias
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Minha vida, depois que sai da minha terra natal para estudar, vive tendo reviravoltas impressionantes e me dando uma nova vida sempre. Mas até então, eu não sabia o que fazer com essa nova vida e sempre agia com o instinto, de forma automática e nunca de uma forma racional e lógica. Por exemplo, quando sai da casa dos meus pais, nada me impedia de viver minha vida gay, mas de alguma forma eu continuei apanhando e não sendo o “viadinho” que meu pai ordenou. Então segui sendo hetero e me relacionando com mulheres. Não estou aqui dizendo que eu me forçava a ter uma vida hetero, quero dizer que eu sabia como agir nesta vida e continuava no automático. Sem sofrimento, sem angústia, sem arrependimentos. Só não dava atenção e o devido cuidado com os meus desejos sexuais mais profundos.
Com isso, tive a minha construção da relação com a minha ex-esposa. Foi leve, gostoso, atencioso, cuidadoso e sempre fomos acolhedores um ao outro. Com alguns reveses que apareciam, principalmente, quando o meu lado gay, que nem sempre eu controlava, aparecia em público. Tem um episódio que em um show, estávamos com nossos amigos, meus e os dela. Tenho um amigo que sempre foi muito afeminado, mas sempre se declarou hetero. Neste show, eu e ele soltamos os nossos lados mais histéricos e gritávamos muito de emoção e desejo por estarmos ali, em um lugar e não nos preocupamos com repressão por agir daquele jeito. Mas os amigos dele e ela se afastaram e quando percebi, mais para o final do show, vi o rosto de reprovação, o rosto da minha mãe antes de falar com o meu pai. Eu ouvi ela dizer novamente: “Quando seu pai chegar, conversaremos”.
No outro dia, eu e ela fomos conversar e ela me disse que as pessoas que estavam com ela não gostaram da nossa atitude, que parecíamos muito gays com aquilo. E novamente eu levo outra surra. E o pior, é que eu não tentei acabar com tudo e buscar viver como eu desejava, mas eu nem sabia o que eu desejava, naquele momento. Mais uma vez, com foi o pôs-surra, me rastejei até ela – como fiz com minha mãe, pedi desculpas e disse que me controlaria e que estávamos brincando e exageramos. Mas em outro show, só eu e ela um tempo depois, eu comecei a me exaltar e quando vejo, ela está parada ao meu lado com o olhar da minha mãe novamente. Neste momento, eu parei e cruzei os braços e o show acabou para mim ali. Ela tentou me puxar para dançar, mas eu não poderia começar, pois não saberia se dançaria no tom másculo que não me fizesse apanhar novamente.
Depois destes acontecimentos, retomei a minha armadura e me fiz totalmente hetero. Durante o tempo da faculdade, eu não tive experiencias gays, não transei com homens e não tive meu desejo revisitado. Só vim atuar em meu desejo depois que nos mudamos para o nosso apartamento. Também na faculdade, eu morava com mais três rapazes e não tinha muito espaço para esse meu desejo. Eu estava totalmente focado em terminar a faculdade e conquistar o meu diploma. E foi o que fiz.
Quando terminei a faculdade e fui morar com a minha ex-esposa, comecei a dar mais atenção para o meu desejo sexual. Só transar com ela não era mais o suficiente. Eu precisava de mais. Com a desculpa que ela não tinha muito interesse por sexo, fui buscar onde era mais fácil, com homens. Achei as salas de bate-papo, onde tive diversas experiencias de me vender naquelas salas e comecei a ter vivencias carnais com caras. Encontrei um homem 20 anos mais velho que eu e tive uma relação com ele de quase um ano. Ele me ensinou como muita coisa no sexo, lembrando que eu era totalmente virgem com homens até então. Ele foi o meu primeiro homem real. Mas nossas relações sexuais eram mais masturbatórias e ele adorava fazer sexo oral em mim e mais nada. Tínhamos uma relação muito mais intelectual, adorava conversar com ele e a irmã dele. Passávamos horas conversando.
Nesta época, eu estava fazendo mestrado e ele era um dos “co-orientadores” da minha tese e assim, fica fácil de vê-lo sempre. Mas ele queria mais de mim e eu não estava pronto para isso. Terminei com ele e dei um tempo com os homens, pois ele uma vez ligou em minha casa às 03:00 da manhã, chapado. Ela atendeu, me acordou e passou o telefone. Eu lembro de falar para ele: “Isso são horas de ligar para a minha casa?”, ele se desculpou em tom bem sério e desligou. No outro dia, fui a casa dele e terminei tudo. Foi a primeira vez que eu havia sido exposto daquele jeito. Com que essa minha vida gay teve a audácia de se cruzar com a minha vida de hetero? Isso era inadmissível e eu recuei.
Esse primeiro temor de ser descoberto, me deixo inerte em minhas experiências gays e fui muito mais discreto. Só experimentava com os meus codinomes e fantasias despertadas por imagens do computador. Aí começou o meu mundo masturbatório, onde eu criava as personas que poderiam participar dele, mas sem contato físico. Neste mundo, eu aprendi que poderia manipular o meu desejo quando eu quisesse. Transaria com que eu quisesse, da forma que eu quisesse, na hora que eu quisesse, tudo muito lindo e extraordinário. Mas o contato físico fazia falta. Foi onde eu, às vezes, me encontrava com alguns homens. Mas sem criar vínculos afetivos, só sexo!
Mas, de repente, minha ex-esposa pediu o divórcio. Eu achei estranho, mas não ofereci resistência. Sentamos e dividimos os móveis da casa. Com a lista finalizada, eu fui dormir. Acordo e ouço ela conversar com alguém ao telefone. Pego a extensão do quarto e fico ouvindo. Ela conversava com uma cara que ela já havia encontrado na casa da mãe dela e estavam fazendo planos de se verem novamente. Fiquei louco, fui para a sala, peguei o aparelho da mão dela e arremessei na parede. Foi um descontrole que eu não sei de onde veio. Já estávamos separados, mas saber que ela tramava em minhas costas, fez surgir o meu lado hetero terrível e muito agressivo. Quase que eu a agrido! Quando eu me vi com toda aquela agressividade, parecendo o meu pai, me assustei e cai no sofá. Quando eu a vi encolhida no outro sofá totalmente apavorada.
Quando eu vi a cara de desespero dela, logo me vi apanhando e meu pai gritando comigo. Isso me deixou em choque. Depois conversamos e acertamos que quando ela voltasse de viagem (ela viajaria no dia seguinte), conversaríamos melhor e resolveríamos as questões do divórcio. Fomos dormir e no outro dia, sinto ela me beijando a face e saindo para o aeroporto. Ela me deixou uma carta, mas não lembro do conteúdo, só lembro da minha necessidade de colocar tudo o que ficaria para ela no lavabo. Era por volta das 08:00 da manhã. Então eu fui empilhando, empilhando e, de repente, vejo uma chave de fenda no chão, a pego para enfiar em meu coração. Caio no chão do quarto. Acordo desnorteado, sem saber onde eu estava. Só lembro que era final da copa do mundo e na televisão estava passando o programa do Faustão, logo pensei, o Brasil perdeu. O Galvão não estava gritando, nem aquelas intermináveis entrevistas com os jogadores, o Brasil perdeu.
Liguei para os meus amigos que moravam na capital para me ajudarem a fazer minha mudança, não tinha mais motivo para eu continuar no interior. Eu trabalhava na capital e viajava todos os dias para trabalhar. Eu só morava lá, porque ela trabalhava lá e já estávamos habituados com a cidade. No outro dia pela manhã, meu amigo estava lá com um caminhão bau para levar toda a minha mudança. Em um dia, eu estava com a minha vida nova em movimento, mas novamente, de forma inconsciente e no automático. Eu fui dividir um apartamento com um colega.
Dias depois, a minha ex-esposa me liga para nos encontrarmos. Eu já estava totalmente ambientado no meu novo mundo e já vivendo o meu novo eu. Marcamos de nos encontrar. Eu já tinha o meu discurso pronto e ensaiado. Disse que ela foi forte e corajosa de enxergar o melhor para nós dois e que eu nunca teria essa coragem. Mas que agora eu sabia que a atitude dela foi o melhor para os dois. Já soltei essa para que ela nem tivesse a chance de pensar em me pedir para voltar. Eu não queria mais estar casado, eu não queria mais estar com ela, eu estava gostando desta sensação de viver sozinho emocionalmente. Teve aquele teatrinho de choro dela, de não falar coisa com coisa, mas nos despedimos e fomos viver, cada um a sua vida.
Neste tempo, eu pude viver experiencias relacionadas com o meu desejo sexual. Entrava em salas de bate-papo, marcava encontros. Foi aí que eu comecei a ver que as coisas não eram bem como em meu mundo masturbatório. As coisas não batiam com o meu desejo, os homens não agiam conforme eu queria, o sexo não era parecido com o que eu sonhava. E fui tentando, me decepcionando, me afastando do meu desejo imaginário. Tive alguns encontros, mas nada me marcou a ponto de me mostrar que eu deveria viver a minha sexualidade plena. O que estava acontecendo? Por que esse desencontro do meu desejo com a realidade? Eu não sei responder e cada experiencia me mostrava que não era bem assim que eu havia sonhado.
Com Re-Amor, Simon!





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