Eu estou perdido e mudado?
- Simon Jaques & Blue

- há 2 dias
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Desde a tragédia da covid, eu tive que repensar a minha vida. Desde a internação, em que eu tive que sobreviver, eu repetia toda hora para mim: “Você só precisa sobreviver!”. Daí eu passei a não viver conscientemente e passei a somente reagir à vida. Mas este ano, eu tomei a decisão de fazer uma escolha de vida. E escolhi conviver com a vida que me acolheu depois da tragedia da doença. Viver com quem esteve ao meu lado. Com quem me acolheu, me ofereceu um colo, um abraço. Com quem há anos, esteve ao meu lado na vida. A minha família!
Nestes 6 anos pós pandemia, tiveram algumas pessoas que me acompanharam e viram todo o meu sofrimento da depressão que não passa e que me arrasta para o isolamento. Eu não tenho o menor interesse em conviver socialmente, eu não tenho o menor interesse por alguma atividade de laser, social, fitness ou ações que me tirem do aconchego e acolhimento do meu lar. Eu fiquei quase 4 anos, isolado em minha casa do interior, onde minha família ficava comigo nos fins de semana. Eu só conseguia conviver com eles.
Minha esposa, com todos esses percalços, se manteve ao meu lado. Por algum motivo, que eu desconheço e não tento justificar, ela não foi embora como fizeram as mulheres da minha vida. O engraçado é que eu nunca me senti abandonado por homens, como o meu pai, meus irmãos, meus amigos, meus homens para sexo, somente pelo John. Mas as mulheres têm um papel em minha vida que quando elas se afastam, eu me sinto abandonado e sigo minha vida com essa perda sempre presente. A única que permaneceu comigo, foi a minha esposa. Ela deve ter os seus motivos, mas ela não se afastou, ela não me deixou, ela permaneceu. Com isso, eu me senti acolhido, abraçado, compreendido, suportável.
Ela de alguma forma se manteve ao meu lado, manteve o nosso casamento. Eu antes da pandemia, estava me estruturando para viver sem o casamento. Eu queria ser livre de compromissos para ter uma vida só minha, só eu. Mas como ter uma vida assim? Tinha meus filhos, tinha minha mãe, meus irmãos, minha família de sangue. Eu nunca viveria só eu. Eu nunca seria sozinho para viver a vida de “viadinho” que meu pai havia decretado que eu não teria nunca. Como seria viver essa vida sem essas pessoas?
Eu sempre sonhava em ser considerado morto e mudar de identidade, morar em um lugar bem ermo e ser um novo eu. Sem ninguém que soubesse desta minha vida pregressa de hetero. Viver com um novo nome, um novo ser, um novo eu. Mas entendo que eu nunca seria um novo eu, pois o velho já era parte enraizada em mim. Não existe uma célula do meu corpo que não esteja ligado a este velho eu. Então vamos ter mais consciência de vida e planejarmos a trajetória de minha vida a partir daqui?!?! A partir do que eu tenho e sou?!?!
Em vária sessões de terapia, consegui alinhar minhas expectativas de vida e o modo operante da minha vida daqui para frente. Observei que a minha vida mais feliz, sempre esteve cercado por minha família (esposa e filhos), foi o ponto de partida. Depois, elenquei as ações que eu deveria tomar para continuar com essa vida que me traz acolhimento, conforto, estabilidade emocional e, principalmente, amor. Comecei com o juramento que fiz à minha esposa no dia do casamento: “Eu, Simon Jaques Blue, recebo-te por minha esposa e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida, até que a morte nos separe”. Com esta frase, meu campo de ação e minhas aventuras sexuais se restringem muito. Para começar, devo ser monogâmico, ou seja, amar, respeitar e ser fiel a uma única pessoa, que neste caso, é a minha esposa. Veja que não estou falando de sexualidade e sim, de um juramento e o respeito a ele. De um conceito de vida. De uma escolha!
Para respeitar esse juramento, eu devo parar com as minhas aventuras sexuais, abandonar a minha permissividade sexual, o meu direito - decretado por mim - de ter relações sexuais com outros homens e passar a me dedicar a uma única pessoa: a minha esposa. Dentro do conceito de monogamia, independente do sexo do meu parceiro, eu teria que ter relações sexuais somente com uma pessoa. A princípio, esse conceito foi muito agressivo para mim. Eu tinha muita dificuldade de entende-lo e seguí-lo, até mesmo, porque meu conceito de traição não incluía sexo ocasional. Mas a regra é clara e não deixa margem para dúvidas: ser-te fiel. E como não houve nenhuma cláusula de exceção, tenho que seguir o contrato.
Hoje, estou me adaptando a esse conceito de monogamia e me desvencilhando das exceções que eu adoro achar que tenho direito. Minha escolha é manter esse núcleo com minha esposa e filhos. Manter essa minha identidade de ser humano. De salvar o corpo, em detrimento à perda que perdi.
Em minhas vivencias homossexuais, eu não encontrei ninguém disposto a me amar. Eu amei, eu tentei e não tive retorno. O John foi a maior escola da minha vida amorosa. Ele tem tudo que espero fisicamente em uma pessoa. Mas falta o principal, ele não tem amor por mim. Não tem o desejo de viver comigo, de ser minha família. Será que um dia, eu encontrarei um John completo? Eu sei que eu aproveitei muito essa minha fase adolescente sexual tardia. Fiz tudo que me deu vontade, exceto, ter um amor recíproco. Agora, já estou um rapazinho, eu preciso seguir com minha vida e ter consciência da vida que levo e quero





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