A reconstrução da auto-imagem - Part #02 (Não vale a pena ver de novo)
- Simon Jaques & Blue

- 17 de dez. de 2018
- 4 min de leitura
Atualizado: há 3 horas

Eu nunca tive a noção exata da amplitude emocional daquela surra que meu pai me deu. Eu achava que apenas a minha definição sexual havia sido destruída, mas que ledo engano o meu, o estrago foi em vários setores da minha vida, principalmente, quando envolve poder, hierarquia, relação profissional. Eu não tenho dificuldades em receber ordens, instruções, orientações, muito pelo contrário, porém, quando um chefe, um sócio, um cliente, seja quem for não deixa claro o que quer ou não aceita minhas idéias, eu entro em pânico e logo tenho uma crise de ansiedade. Partir daí, em todas as noites que seguem, eu terei pesadelos onde sempre erro e o meu algoz aponta este erro várias e várias vezes. E durante o dia passo em sobressaltos esperando um telefonema onde serei insultado por ter feito algo de errado ou uma mensagem apontando mais um erro e com a afirmação retórica “Já te falei isto um milhão de vezes...”. E o pior, eu concordando com tudo e dando razão para o meu carcereiro mental, assim como fiz com o meu pai enquanto ele me espancava. Ele está certo, eu não tinha o direito de ser viado, eu não poderia ter errado e o pior, ele ter descoberto este erro.
Neste momento, por exemplo, eu estou tentando me acalmar, escrevendo este texto e assim minimizar minha crise. Estou com um puta problema com meu sócio Laurent. Ele é uma pessoa muito autoritária, perfeccionista e com muitos problemas com a família dele. E sempre que ele tem algum atrito com a família, vira o seu canhão para mim e é crítica em cima de crítica, nada está bom, tudo tem que ser refeito e que eu não sei fazer nada. Mesmo eu tendo consciência total de que ele faz tudo isto para se esvaziar do estresse dele, eu não consigo evitar de dar razão a ele e assumir toda esta carga emocional que aos poucos está me matando, me envenenando. E eu não enxergo uma saída, não consigo reagir por medo de magoa-lo e em nenhum momento, eu tenho forças para fazer o que eu desejo por medo de ser desequilibrado, de ser sem noção, de exagerar na reação, de ser o errado. Para não errar com o outro, sigo errando comigo e com minha vida. Só para não dar mais motivos para ser espancado, não dar mais razão para o meu pai em figura de sócio, chefe, professor, esposa, empregada, seja quem for.....
Desde a semana passada, estou convicto em ter o meu próprio negócio. Pois este não considero meu, uma vez que a empresa tem o nome do Laurent, o registro está no CPF dele, ele escolheu as cores de identidade visual. Ele tem uma necessidade que eu fique do lado (fisicamente falando) dele para ajuda-lo a lidar com a informática e no emocional para lidar com a família dele. Me sinto fraco e sem forças toda vez que trabalho na casa dele. Então me perguntei, por que estou passando por isto? Qual o motivo real de viver situações como esta que se repetem? O que tenho que aprender para que nunca mais eu viva este tipo de situação? Estou sofrendo, minha alma está escurecendo, minha vida gastronômica quase já não existe, não estou ganhando dinheiro (só gastando), me afundando em empréstimos bancários.
Hoje caiu a ficha depois de um dia longo com Laurent, eu preciso deste gozo que este sofrimento me causa. Eu sei lidar com este sofrimento e com esta angustia, mas não sei o que fazer diferente disto, de lutar pelos meus desejos, de falar o que eu sou e quero, de mostrar o meu ponto de vista. Eu nunca pude ter desejos, pois qualquer desejo remeteria à minha sexualidade e eu NUNCA deixaria transparecer que sou gay para não ser espancado novamente. E sempre que eu recebo uma rejeição por alguma ação minha, eu fico preso emocionalmente ao meu interlocutor e quando ele descobre isto e faz uso, me torna ainda mais escravo e dependente desta relação doentia e nociva.
Eu só não me liguei que eu não estou mais preocupado em ser gay, preto, feio, pobre, favelado, bipolar, seja o que for, eu só me preocupo em ser eu. Sendo assim, não tenho mais a necessidade deste gozo mortal, eu quero outro gozo, o gozo com o John, o gozo de felicidade em estar comigo, gozo em ser chef e o melhor de todos, o gozo por mim. Eu tenho que me priorizar, me alegrar, me sentir bem com a minha profissão. Não posso me satisfazer com pouco, eu não mereço só o pouco, eu mereço o máximo que eu posso me dar e sanidade mental é o primeiro. Para isto, tenho que aprender a lidar com as pessoas que me trazem esta sensação do espancamento paterno. Tenho que amadurecer e conversar com o próximo sobre minha felicidade, sobre o que eu preciso e como quero ser tratado, reivindicar os meus direitos de ser respeitado, principalmente, por mim mesmo sem priorizar a opinião do outro. Eu não sei como fazer isto..... Mas tenho que achar um jeito para mostrar que eu tenho o direito de ter direito, sem ser julgado e condenado por isto.... Mas esta questão será uma outra história.....
Com Re-Amor, Simon!!





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